Monday, October 11, 2010

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Apresentação

Bem sabemos que não existe a Verdade. Nem por isso devemos descartar a busca pelo sentido. Ao menos desde Nietzsche, sabemos que o sentido não existe de maneira imperativa, deve ser criado. No entanto, se não o criamos, ou se o criamos levianamente, todos os valores se equivalem, tanto faz a vida como a morte, e até o fascismo pode ser justificado. O relativismo mal compreendido tende ao niilismo, o qual o pensador alemão, longe de defendê-lo – como supõem as leituras superficiais – combateu arduamente. Não há critérios absolutos para a criação do sentido, mas cada premissa traz em seu bojo consequências, e não considerá-las em sua imanência só pode incorrer em má-fé. Os argumentos não devem ser forçosos, as articulações devem dar conta dos movimentos a que se propõem. No presente livro, haverá certamente contradições, mesmo propositais, pois as antinomias muitas vezes são mais precisas do que as certezas. Ainda assim, combaterá algumas posições que se demonstram incapazes de propiciar saltos maiores. Talvez seja esse o critério que melhor nos guie: defender sempre aquilo que abarca o maior número de situações que a experiência nos traz. Para bem filosofar, é preciso coragem e vigor que, infelizmente, nem todos demonstram possuir. Como compensação, temos na arte um poderoso auxílio para suportarmos a angústia da maior de nossas tarefas. A criação do sentido requer que se combine às empreitadas filosóficas um espírito artista.
            
Não se disfarça nestas páginas o ímpeto de romper paradigmas. Paradoxalmente, o livro é tão mais disruptivo quanto mais destrona supostos revolucionários. As rupturas não valem por si mesmas, não valem apenas pelo radicalismo. É preciso ver em nome de quê se provoca um levante, não apenas sair atirando. A decadência das grandes narrativas, que marca a mentalidade pós-moderna, não pode ser um festival aleatório de assassinatos – morte da História, morte da filosofia, morte da arte, etc. A destruição é parte de qualquer processo de transformação, e deve ser apoiada quando abrir possibilidades instigantes. Infelizmente, a abertura para devires promissores não aconteceu com a frequencia desejada no caso da arte pós-moderna – ao menos não em muitas de suas manifestações mais características. A retirada da Verdade, passo importante apesar de arriscado, quando mal entendido pode dar lugar a comportamentos cínicos, por vezes sofistas e por vezes desesperados. Abundam os oportunistas sob pele de cordeiro e os niilistas no sentido mais fraco. No caso das artes plásticas, o debate se concentrou na questão da morte da pintura, cujos desdobramentos são abrangentes e cujas dificuldades requerem análises cuidadosas. Antes de mais nada, é preciso admitir que o problema existe: mesmo que, passada a fase mais radical dos anos 60 e 70, a pintura na prática tenha sobrevivido, é preciso ter a clareza de que uma ala muito influente da arte pós-moderna ainda a repele. Não se coloca impunemente uma obra tipicamente pós-moderna ao lado de uma pintura: há uma agressão, há um ataque violento que a sensibilidade deve perceber e questionar. O prejuízo não apenas à pintura como técnica específica, mas à potência da arte em geral, se prolonga em muitos casos recentes, seja ou não adotado o termo “morte da arte” em meio aos discursos.

Também é preciso admitir que, por mais que alguns dos aspectos da arte contemporânea pareçam caricatos, desde os anos 60 se impuseram como uma tentação irresistível para os artistas e para o meio. O fato de terem aparecido simultaneamente em diversas regiões endossa a constatação de que tais desenlaces, durante um período foram inevitáveis, gostemos deles ou não. Na França, Yves Klein teria sido, por um lado, o último grande artista moderno e, por outro, o primeiro a fazer do vazio uma obra, abrindo caminho para a arte conceitual pós-moderna. Nos Estados Unidos, tivemos, da Pop Art em diante, uma intensa reação ao expressionismo abstrato (especialmente a Pollock), tanto na teoria quanto na prática. No Japão, o grupo Gutai antecipou o cultuado Fluxus na proposta de dissolver a arte no cotidiano – e, ironicamente, os japoneses eram extremamente reverentes a Pollock, provando que pontos de partida aparentemente opostos levariam a direções semelhantes. Isto fica ainda mais evidente quando consideramos que em todas essas regiões, Marcel Duchamp se sobrelevava como referência máxima, ao passo que no Brasil, Hélio Oiticica o rechaçava terminantemente, encontrando em Mondrian e nos construtivistas russos seu caminho para o pós-modernismo. Movimento irrefreável, mas, como veremos, nem sempre como uma evolução. 

            Os ataques à arte se mantêm mesmo quando não verbalizados com todas as letras, e faremos aqui um esforço para deslindar as posições em disputa. É leviano acreditar que a mixórdia seja sustentável. A experiência e o pensamento mostram que a aceitação forçada de ideologias extremamente antagônicas está corroendo a possibilidade de que a arte ainda possa criar qualquer sentido. O que se propõe neste livro não é desvendar o sentido da arte, que cada um deve encontrar por si mesmo, mas demonstrar algumas premissas para que o diálogo entre arte e vida aconteça. Para tanto, deve-se conceder à arte maior autonomia do que se lhe tem permitido, o que de modo algum significa isolamento, mas uma relação de alteridade porosa com a vida. Para haver relação é preciso mais do que um, não uma indistinção escorregadia, não um vale-tudo onde, como de praxe, quem ganha são os poderosos. É para reforçar a dinâmica do diálogo que rechaçamos a mais desastrosa utopia que a arte almejou, a da fusão entre vida e arte, onde a supressão de diferenças acabou por sufocar espaços de desejo. Para tal empreitada, tenhamos coragem intelectual e honestidade, evitando a diplomacia indulgente que se tem praticado. Se a arte está em xeque, também a vida está, e é justamente o niilismo que procuraremos superar.

Em um primeiro momento, os opositores nos parecem mais fortes, pois exercem influência quase hegemônica nos debates contemporâneos. No entanto, será demonstrado aqui que um pensamento mais refinado os coloca inevitavelmente sob suspeita. A criação de sentido precisa de algo mais do que a simples opinião ou de elucubrações moralizantes, do contrário não teremos nem arte nem pensamento, mas ideologia e jogos de poder. Os equívocos se prolongaram porque calcados em uma retórica acobertadora, porém realizaremos a destruição produtiva, liberando uma energia que os organismos saudáveis saberão aproveitar. Há uma conciliação possível? Sim, não seremos totalizantes em nossa recusa, muito menos nos reduziremos aos lamentos. Não será possível, no entanto, avançar sem antes denunciar uma boa parcela da arte contemporânea. Ao fim do livro, estará claro que queremos reabrir possibilidades que estavam atravancadas, propiciando novos e auspiciosos desdobramentos.

Arte versus antiarte

    Bem e mal, corpo e alma, céu e terra, certo e errado. Somos induzidos a dividir o mundo em duas categorias, em dois campos opostos que permanecem incólumes um em relação ao outro, de modo a manter um ideal de pureza. Eis um padrão mental bastante redutor, mas que infelizmente permanece arraigado. Muitos dos filósofos e artistas mais interessantes nada mais fizeram do que dedicar suas vidas à árdua tarefa de ensinar as pessoas a contarem além do número dois, e continuamos precisando de novos pensadores que possuam uma vocação semelhante. Não se pode abrir espaço para qualquer avanço intelectual significativo enquanto o maniqueísmo não for efetivamente desacreditado, enquanto o dualismo não for substituído por uma visão de mundo que admita a pluralidade.

            Contudo, ao menos uma divisão em duas contrapartes se justifica, e talvez seja aquela que nos vicia nessa pequena matemática. A concepção dualista originária, muito provavelmente, é aquela que distingue o eu do não-eu, o que está dentro e o que está fora de mim. Não a obtemos logo ao nascer, mas em um processo que começa por volta dos seis meses de idade e jamais atinge a plenitude. Começamos a vida como um amontoado caótico de sensações, sem a menor compreensão de si e incapaz de assimilar os estímulos externos. Somente durante o chamado estágio do espelho, segundo a teoria de Lacan, o bebê constata, através da mãe, a existência do Outro, e é com isso que se faz possível a noção de eu. Não podemos esquecer que a relação entre eu e não-eu é dinâmica, nada tem de estanque, pois os pares se caracterizam pela troca ininterrupta. Aquilo que está dentro e o que está fora do sujeito se entrelaçam: o ar que se respira, a comida que se engole, as fezes que saem, a cultura que pressupõe sociedade, a percepção que advém do entorno, as bocas que se juntam no beijo. Basta um pouco de atenção ao processo para entender que nada tem de binário, que o fluxo é marcado por frações e algoritmos os mais diversos. Infinitas combinações são possíveis, desde que aceitemos um certo limite insuperável. Jamais, por exemplo, a expressão de peito aberto pode ser literal a ponto de o coração sobreviver fora da caixa torácica. A pele, cheia de poros, atravessada constantemente pelo ar e pela umidade, ainda marca uma fronteira entre um dentro e um fora de mim.

A esta altura, provando que nada existe sem diálogo, o pensamento de um ou outro leitor talvez se desvie do texto. Uma entre as possíveis reações de sua parte seria questionar a necessidade de tantas digressões, posto que o assunto é arte – e não filosofia, nem psicanálise. Na realidade cada leitor terá suas questões, sendo esta uma conversa que não se restringe a um público específico. O que temos em disputa é uma visão de arte que acredita haver necessidade de reformulações e um conjunto de preceitos que há décadas tem se imposto sem a devida auto-crítica. Tentarei expor da maneira mais flexível que conseguir, embora ciente de que não poderei ser demasiado complacente. A discussão é tensa, mas farei o possível para aliviá-la de um antagonismo muito simplista, deixando espaço para que se coloquem ressalvas em tudo o que aqui for afirmado.

 Fato é que não sou o único a se angustiar com uma série de equívocos recorrentes na arte contemporânea, o mais evidente sendo a recusa em se aceitar um público heterogêneo. A arte contemporânea costuma se dirigir a um espectador-padrão, geralmente alguém que já traga um estudo sistemático do assunto, e que por meio desse estudo tenha chegado sempre às mesmas conclusões, exigências e desejos. Supõe-se que esse espectador ideal esteja de acordo com diversas normas ideológicas que raramente podem ser deixadas de lado, sequer questionadas. Por mais que o pensamento dominante de arte contemporânea beba alguma filosofia e procure olhar para o mundo, tem se demonstrado refratário às influências externas. Por mais que pretenda um compromisso com diversas áreas do conhecimento, a arte vem atuando de modo que todo líquido assuma passivamente a forma de seu vaso – dificilmente recebe influências externas como algo cuja circulação começa de fora e retorna para a chuva. Ainda é precária a capacidade que se tem visto, por parte de um grande contingente de artistas, críticos e curadores, de dar a devida atenção ao que se passa além de suas próprias fronteiras. Paradoxalmente, é a ânsia de abarcar tudo, de presumir que qualquer coisa possa ser considerada arte, que terminou por estabelecer uma concepção que recusa a pluralidade. Se a arte contemporânea fosse uma pessoa, estaria aquém da percepção da fronteira entre um dentro e um fora de si, entre eu e não-eu. A indistinção a que chegamos é semelhante à do bebê recém-nascido, que mal tem consciência de seus limites – e portanto não consegue se relacionar com o mundo.

Arrisco-me a soar reacionário aos leitores de julgamento mais apressado, mas aqueles que tiverem paciência para acompanhar o livro até o final, e suportarem a existência de opiniões divergentes em relação ao que já está consolidado, verão que a intenção é evitar problemas não só estéticos como também éticos da maior gravidade. Não é difícil perceber que o grande ideal da arte das últimas cinco décadas fracassou. A fusão entre arte e vida foi a utopia máxima de várias gerações de artistas, porém já tivemos tempo para perceber o quanto ela foi não apenas frágil como insidiosa. Em alguns casos os erros podem ter origem na ingenuidade, em muitos outros na má-fé ou no narcisismo. Porém, apenas com muita distorção dos fatos se poderia sustentar que a dissolução da arte na vida – em outras palavras, a sugestão de que qualquer coisa possa ser chamada de arte – tenha contribuído significativamente para a sociedade. A não ser que consideremos sociedade o pequeno círculo de artistas, colecionadores, críticos, curadores, e outros do mesmo ecossistema, é evidente que a arte nunca esteve tão distante da vida.

            Questão de tato

            Um dos exemplos que podemos tomar como ponto de partida é o de Mierle Ukeles. O principal trabalho dessa norte-americana, Touch sanitation, nada mais foi do que o gesto da artista, apertando a mão de centenas de funcionários da limpeza pública de Nova York. Os vídeos e fotos circularam em galerias de arte, mas a obra em si não estava sequer nas cenas registradas pelas lentes, que ficaram como registro documental, não como obra. A “obra de arte” estaria no gesto mesmo, no apertar-se as mãos. Em tese, a obra estaria no suposto despertar de consciência que o espectador obteria ao notar que pouquíssimas pessoas cumprimentam os encarregados de se livrar do lixo. Essa performance já entrou em diversos livros de história da arte, e mais de trinta anos depois, mal se comenta o quanto algo assim não é apenas superficial e tedioso, como anti-ético, por mais que travestido de engajamento. Qualquer pessoa bem intencionada concordaria que os garis são tratados como seres invisíveis pelas pessoas de situação confortável, sendo esse um problema que merece atenção. No entanto, ao menos a meu ver, um candidato a vereador poderia fazer exatamente o mesmo, com intenções das mais hipócritas e eleitoreiras. Para piorar, ao enunciar que um simples gesto como apertar as mãos ”é arte”, o que se subentende – e vem sendo aceito acriticamente – é a negação de qualquer possibilidade de uma aproximação sincera entre qualquer pessoa de boa situação, inclusive a própria Mierle Ukeles e os funcionários de limpeza. Esse contato só pôde acontecer em uma esfera que se distancia daquilo que entendemos por realidade, remetendo ao território mental que reservamos à fantasia e à ilusão. Por isso mesmo, a grande maioria dos garis não conseguiria jamais entender um encontro desses como arte – e afinal, por que deveria? – deixando claro que o verdadeiro aperto de mão se deu entre a artista e seu pequeno público das galerias. Os desafortunados entraram na obra como objetos, não como participantes. O que assistimos não é um encontro verdadeiro, mas a degradação da política em espetáculo, como se o lugar ideal para todo ativismo fosse numa espécie de limbo inefável, em um mundo de devaneios e de abstrações reservado para a fantasia. 
 



           Parece-me claro que o erro mais frequente na arte contemporânea é o esquecimento de que existe um mundo para além de suas obras. Ao levar a fusão entre arte e vida a seu paroxismo, mais nada parece tangível, pois praticamente tudo se torna uma obra de arte em potencial – basta assinar. A tal ponto a realidade se tornou fantasmagórica para os artistas, que sem cerimônia ignoram diversos problemas que com algum raciocínio poderiam há muito tempo ter solucionado. No momento em que houver uma reavaliação crítica de o que vale a pena chamar de arte e o que não, os equívocos mais constrangedores, como o do caso descrito, poderão ser evitados. É fatal que isso venha a acontecer mais cedo ou mais tarde, e este livro pretende ser apenas um catalisador, apontando o quanto é imprescindível assumirem-se as falhas das últimas décadas, assim como buscar maneiras mais promissoras de se entender arte.

            Não é o caso de se rejeitar toda a produção de Duchamp, como sugere a ala mais purista dos críticos, tão solenemente ignorada pelos artistas que não poderia ser mais inócua. A crítica de arte só poderá se tornar um verdadeiro diálogo, em vez de confronto ou condescendência, se conseguir isolar as causas da anemia. Faz-se necessário desconfiar, em primeiro lugar, não de Duchamp, mas de sua má interpretação. Quando o francês começou a assinar objetos comuns e chamá-los de readymades, estava lançando um desafio, colocando uma questão, que se assim fosse compreendido não poderia jamais ter se tornado o caricato paradigma que é hoje. Não há nada mais fácil do que imitar Duchamp, ainda mais em um contexto extremamente receptivo para tanto. Se o gesto de Duchamp ao menos era uma novidade e se coadunava com a personalidade de seu criador, os de seus sucessores dificilmente acrescentam alguma coisa pertinente. A Fonte de Duchamp não foi feita para ser um modelo a se imitar, já que de um readymade para outro pouco interessam variações formais, apenas as ideias. Ideias, mesmo as melhores, tendem a se destacar das obras, passam a prescindir delas, o que torna uma agonia notar a redundância da maior parte dos trabalhos de arte conceitual. Não é uma experiência das mais frequentes encontrar em tais obras um conceito muito novo, menos ainda apresentado de maneira mais instigante que em um bom livro de filosofia. Acontece esporadicamente, porém o que mais se celebra nas exposições são variações mínimas de discursos já repetidos, geralmente partindo do mesmo axioma: “Arte é tudo aquilo que um artista chama de arte".

Até hoje se faz piadas com as telas de Miró ou de Malevitch, uma infinidade de insinuações de que qualquer criança seria capaz de fazer igual. Isso está longe de soar verdadeiro para um olho bem treinado, porém, no caso do “duchampianismo” mais rasteiro, o chiste adquire consistência. Qualquer um pode recortar um pedaço da realidade e dizer Achei isso aqui interessante. Basta isso para se ter um ready-made, mas normalmente já fazemos isso o tempo todo. Nós trocamos presentes banais que só têm significado por virem de alguém que consideramos especial; nós pedimos para que alguém preste atenção a um movimento fugaz, seja um salto de trampolim ou à briga dos vizinhos; nós relembramos certos episódios pessoais com carinho ou com obsessão, e tudo isso faz parte do que chamamos vida. Tudo isso acontece espontaneamente, sem que precisemos de um artista nos orientando.  No entanto, quando a vaidade impele alguém a deslocar qualquer recorte da realidade para o espaço da arte, notamos todo um circuito profissional pronto a promover essa nada modesta assunção. Claro que há diferenças cruciais entre dar destaque a um objeto, um momento ou uma situação em um espaço mental onde estão nossas apreensões da realidade, ou situar a mesma coisa junto às conexões onde se forma o juízo do que chamamos arte. O famoso mictório de Duchamp só vibra como obra de arte para quem consente. Só é arte para quem aceita desligá-lo de suas funções cotidianas e reconectá-lo com uma história que começa na Grécia Antiga[2]. Por outro lado, até mesmo a mais poética pintura de Monet pode deixar de ser vista como arte por alguém que só consiga relacioná-la com a lógica do mercado. Não são poucos os pós-modernos que, seguindo a cartilha anti-artística, desaprenderam a olhar para as ninféias de Monet como um gesto de superação, como um grande marco estético, não só para um indivíduo, mas para o ser humano como espécie. Preferem pensar que em uma obra-prima moderna não há nada além de seu preço nos leilões, ou a maneira com que a moldura se encosta na parede, ou uma combinação banal de materiais e técnicas. Não é segredo que arte não é coisa dada de antemão: sua condição de existência é um acordo tácito com uma ilusão que se assume como tal. Considerando que toda obra requer um gesto de volição por parte do espectador, cabe a nós indagar o que ainda interessa ser considerado como arte. Foi exatamente essa a pergunta que Duchamp e o dadaísmo nos forçaram a fazer, e ninguém se digna a responder, apenas a repetir a pergunta.
      
Pode soar mais inteligente ou mais delicado deixar a questão em aberto, mas isso nos tem levado a problemas muito maiores. O que temos acompanhado na produção, tanto prática quanto teórica, é a proposta de obliteração da arte, apontando para sua morte. Já que a arte surgiu muito depois do aparecimento do homem, já que houve um início de sociedade organizada antes da separação entre arte e vida, ela não pode ser considerada uma necessidade intrínseca, sendo portanto plausível falar em seu desaparecimento. Essa discussão pode surgir às vezes de forma extremamente explícita, outras vezes um pouco diluída, contudo tomar Duchamp como único ou principal paradigma – que é o que tem sido feito – implica em considerar se a arte deve ou não perecer. O filósofo Arthur Danto, por exemplo, considera que a arte já está morta, que seu processo histórico chegou a uma conclusão e os artistas já não produzem arte, mas outra coisa que não saberíamos nomear. Ele vê esse momento com otimismo, como se o objetivo da arte fosse, desde o início, sublimar-se em ideia e em experiência, despojando-se de suas qualidades formais. São figuras de destaque na sociedade que defendem teses como essa, o que torna difícil combatê-las, por mais que os erros sejam crassos. O que dificulta ainda mais qualquer exame independente é um forte componente ideológico: propõe-se a destruição da arte enquanto objeto para que ela se encontre diretamente com a vida. A verdadeira poesia estaria na vida, mas culpabiliza-se a criação de obras de arte por nos fazer esquecer disso. Podemos admitir que essa utopia, nascida com a anti-arte, e que influencia a maior parte da produção contemporânea, tem seu lado romântico, um tanta anárquica, em contraste com algo que pode ser entendido como condicionamento (a arte “presa” na pintura ou na escultura). Mas até que ponto essa proposta é coerente? O discurso se prolonga por cerca de cem anos, com maior ênfase e adesão nos últimos cinquenta, e ao longo do percurso aprendemos que tal utopia poderia, em tese, ser alcançada. A contracultura, o maio de 68, as raves abertas, o carnaval, o terrorismo poético, toda a criatividade de ativistas anônimos, são exemplos da inserção de um espírito artista no cotidiano sem a obra de arte. Supostamente, é isso que apregoam os epígonos mais eloquentes de Duchamp.

No entanto os artistas, mesmo quando se declaram anti-artistas ou algo semelhante, se mantêm sempre um passo atrás do “salto revolucionário” que defendem com obstinada retórica. Após tantas experiências, passa a ser hipocrisia ignorar algo cada vez mais irrefutável: a promessa da anti-arte de derrubar as fronteiras entre espaço criativo e espaço da vida só não se cumpre porque não houve interesse para tanto. Aqueles que mais se remetem à morte da arte são os que afirmam com maior pertinácia uma separação brusca entre o espaço da vida e o da arte. Ao simplesmente despejarem um pedaço da realidade – sejam gravetos, pares de sapato, caixa de sabão, aspirador em pó, um porco empalhado, um cachorro doente ou o que mais propuserem – em um espaço expositivo, reforçam a necessidade do circuito de arte, de um corpo autorizado a dizer: Isso não é um objeto comum, isso é arte. Se a História já demonstrou que, em tese, é possível a imaginação combater o poder sem o status de arte, não há explicação convincente para que o campo da cultura se apresente como mera promessa do que já se pode cumprir. Excetuando Guy Debord, que de fato trocou a arte pela política, nenhum artista jamais desejou a morte da arte. A impressão que fica é que querem apenas adoecê-la, colocá-la na U.T.I. e cobrar uma fortuna dos parentes.

            Não é impossível, no entanto, que um momento niilista como este seja a véspera de uma grande saúde. Assim que houver consenso de que a ideia do desaparecimento da arte em função da vida foi um tropeço, o próximo passo poderá ser um movimento de dança. Ao menos Nietzsche nos dá esperanças de que não é ingênuo pensar assim, quando nos ensina que a verdadeira liberdade pressupõe um momento de profunda negação[3]. Concluída essa etapa, não há motivos para a arte insistir no suicídio, sendo que a vontade inconsciente, invertida porém constante, é vontade de estar presente. Quero crer que os artistas voltarão a entender o quanto é legítima a necessidade de nos defrontarmos com algo que escape do cotidiano, algo que se distancie daquilo que entendemos como realidade. Quanto mais nos deparamos com a alteridade, mais conscientes nos tornamos de nós mesmos – só existe eu a partir do não-eu. É preciso um dentro e um fora para sentir as extremidades, e é por isso que não interessa a indissolubilidade entre arte e vida. Melhor tomar a arte como uma espécie de não-vida, originada da necessidade de algo exterior à vida.  Arte é justamente uma alteridade maior, aquela que se faz em relação à própria vida. Algo com que dialogarmos, com que darmos contorno às nossas concepções – ainda que aberto, deslizante e em constante troca.

           
           


           










[1] O próprio Duchamp dizia expressamente que era preciso limitar a quantidade de readymades a se fazer por ano, do contrário perderiam o sentido. Ao longo de toda a vida, não produziu mais do que vinte obras dessa natureza. 
[2] Segundo, Gombrich, em Arte e ilusão, a arte teria começado com Homero. Antes disso, mesmo as atividades que apresentavam carga estética significativa estavam ligadas a fins específicos, adquirindo valor ritualístico ou servindo à organização social. A arte propriamente dita começa quando há um olhar para tanto, destacado de outras finalidades.

[3] Não só as reflexões de Nietzsche sobre a moral, como também as sobre estética vêm a calhar em um momento como o nosso. O filósofo assumiu muitos dos dilemas da arte atual, inclusive a desconfiança quanto a seu aspecto ilusório. No entanto, por mais que combatesse os ideais ascéticos, não concluiu, (como Hegel, por exemplo) que a arte se encaminha para a própria morte. Pelo contrário, por mais que hesitasse, não perdeu a convicção de que “a vida sem música seria um erro”.

Infância

No domingo em que eu concluía meu artigo Crepúsculo de um paradigma, fiz uma pausa na Praça do Pôr-do-sol. O nome da praça é, sem dúvida, sugestivo, mas naquele instante o paralelismo semântico com o artigo me passou completamente despercebido. A praça se situa a poucas quadras de minha casa, e não há pedaço de grama que eu frequente mais do que aquele. Ao menos não era fim de tarde, o que levaria as coincidências a um nível quase ridículo. O fato é que, naquele dia, quando fui arejar a cabeça, deparei-me com três crianças que me interessaram mais do que a imensa maioria dos artistas contemporâneos. Negras e mal vestidas, elas caminhavam de costas, lentamente, enquanto despedaçavam blocos de isopor. O vento se encarregava de colocar as bolinhas brancas para bailar, e tal efeito as entretinha com encanto e solenidade.
          
Aproximei-me delas e perguntei se alguém havia lhes ensinado tal brincadeira. Disseram que não, que elas mesmas haviam inventado. Passou-me pela cabeça que certos artistas visuais têm propostas muito semelhantes. Não sem o acréscimo de uma retórica sobre o campo expandido, sobre arte como processo, sobre a dissolução da arte no cotidiano. Agora, se meu simples movimento de ir a elas e conversar foi uma interrupção na magia de seu momento lúdico, imagino o estrago que eu não cometeria caso dissesse que naquele momento elas realizavam o ideal de Allan Kaprow ou de Rosalind Krauss.

A brincadeira delas, que parecia tão inocente, logo seria emoldurada por instituições e categorias, e, a não ser que elas se prontificassem a esquecer tais bobagens, perderiam a naturalidade de seus gestos. Se eu acrescentasse, como bônus, que alguns diriam que contribuíam para a morte da pintura, aí sim eu estaria aterrorizando-as, e arruinando completamente o prazer que elas pudessem ter. Prefiro considerar tais momentos como prova de que a fusão da vida e da arte só se consuma quando nem sequer se pensa na palavra “arte”. Momentos tão espontâneos que a retórica adulta desmancha e corrompe. Não há como recuperar a despretensão das crianças em um espaço profissional de arte. Somente quando, em alguns momentos fortuitos, sem compromissos com nada ou ninguém, resgatamos nosso lado criança – quando descansamos de ser consequentes, divertindo-nos ao sabor do vento, apreciando uma tarde em uma praça – é que nosso repertório de arte pode ecoar na esfera da vida.

As crianças que vi na praça são talentosas – não se sabe ainda se talentosas como artistas ou talentosas para a vida – com muita sorte, ambas. Talvez uma das crianças, que afinal demonstraram possuir senso estético, se torne um dia uma grande artista. Não é impossível, tampouco, que ela entre em uma faculdade de artes plásticas, que finalmente aprenda Rosalind Krauss e Allan Kaprow, e resolva capitalizar sua velha brincadeira com isopor, reproduzindo o gesto infantil em uma galeria. Não sejamos puristas, a ninguém devemos desejar que a infância dure para sempre – e nada mais irritante do que um artista que se creia tão puro como a infância idealizada Um artista pode e deve manter seu lado criança, mas quando expõe uma obra, está imerso no mundo do trabalho – por mais deprimente que seja a palavra “trabalho” em comparação com a palavra “arte”. Recusar, como muitos tentam fazer, a enorme distância entre o gesto despretensioso dos pequenos na praça e uma encenação semelhante em um espaço de arte, seria um tanto hipócrita. Algo se ganha e algo se perde ao sair da ludicidade infantil para a ludicidade adulta.

A meu ver, a brincadeira daquelas crianças possui, desde já, uma boa dose de poesia. No entanto, alguns cuidados a mais deveriam ser tomados caso elas quisessem converter seu gesto em uma apresentação para uma plateia mais ampla. Não bastará o improviso ou a instrução mínima: apenas pegar o isopor e soltá-lo ao vento. Será preciso pensar em cada gesto, pensar no vestuário, pensar o tempo, o ritmo, o ângulo do braço ao se deslocar, etc. Alguns veriam aqui uma crítica autoritária, no entanto, ao deslocar um gesto para o mundo da arte, inevitavelmente tudo ganha um novo peso formal, cobra-se uma atenção mais aguçada e detalhista. Arte pode não ser formalismo, mas dele não se depreende. Ao tentar se esquivar das questões formais, o artista pós-moderno acredita poder recuperar a leveza das crianças – pretende se desfazer dos aspectos mais artificiosos da arte, um contra-senso ignominioso. Há um preço ao se pagar quando se torna artista, e não reconhecê-lo é imaturidade. Às vezes, infelizmente, é preciso escolher entre a arte com “A” maiúsculo e a espontaneidade. Invejo aquelas crianças na Praça do Pôr-do-Sol, pois elas ainda não sabem disso.


Divagações sobre arte e vida a partir de uma ocupação da USP


No primeiro semestre de 2007, houve uma ocupação dos alunos na reitoria da USP. A principal reivindicação me pareceu muito justa: a revogação de decretos do governador que ameaçavam a autonomia da universidade. Tive a alegria de visitar o prédio invadido e conversar com os militantes. Cada um trazia uma convicção política diferente, do anarquismo à social-democracia, da esquerda democrática ao comunismo. Após 50 dias de resistência, o governo estadual recuou, dando vitória aos estudantes. Foi dito sobre o episódio, com razão, que a novidade do movimento se deu menos no conteúdo do que na forma. O ato subversivo da invasão do espaço da reitoria, a agitação micropolítica, a vivência dos militantes sob o mesmo teto durante quase dois meses funcionaram melhor do que as tradicionais passeatas, que já não exercem qualquer pressão.



Em 2007, eu já não tinha vínculos diretos com a universidade, tendo sido formado em Artes Plásticas dois anos antes. Bem que eu gostaria, no meu tempo de estudante, de ter vivido a mesma euforia que os alunos experimentaram naquele momento, por maiores que tenham sido suas adversidades. O cerco foi cerrado, as críticas foram abundantes e a polícia fez o que pôde para dificultar a ocupação. Por outro lado, não passei por nada disso e guardei meus anos de estudante sem saudades. Faltou algo que me unisse aos colegas em torno de uma luta comum. A Faculdade de Letras, onde estudava uma namorada minha, me traz lembranças mais doces que a ECA. Talvez até mesmo maiores aprendizados sobre a relação entre ética e estética. Lembro-me, por exemplo, de uma greve em 2002. Fui com ela pintar faixas, sem a pretensão de representar a classe dos artistas, apenas como um entre tantos, um simpatizante anônimo. Naquela ocasião, antecipando táticas usadas na ocupação de cinco anos depois, havia na Letras uma boa criatividade nas investidas políticas. Para mim foi uma descoberta: não faziam política com sisudez, e sim confirmando a sabedoria deleuziana de que a revolução ou é uma festa ou não é nada. Havia música, dança, um sofá “instalado” no meio da rua que bloqueava o tráfego, cartazes coloridos. Nem por isso havia leviandade, mas um devir libertário que não ficava na promessa, que já se apresentava antes de qualquer “juízo final”  supostamente revolucionário. A lição, redentora, era de que se pode manter unidos política e desejo. A festa-protesto garantia a adesão de muitos, o sentimento coletivista, e – talvez o mais importante – mitigava as pretensões de qualquer um que almejasse impor uma liderança mais autoritária. A experiência começava a me mostrar o abismo entre duas correntes de nossos tempos: por um lado, uma resistência política que cada vez mais adquire consciência estética, e que por isso tem se mostrado potente; por outro, artistas ambiciosos que creem na arte como  "o único poder evolucionário-revolucionário", substituindo a estética pelo engajamento, que em minha opinião têm falhado de maneira deplorável.

Naquele dia de 2002, eu bem que tentei, tomado por um súbito otimismo, levar meus colegas das Artes Plásticas para compartilhar daquele momento. Os grevistas da Letras precisavam de voluntários para pintar cartazes, para colorir as ruas, para fazer barulho, e para se misturar à multidão. Por mais politizados que fossem os discursos dos artistas, não encontrei um único colega que se dispusesse a uma tarefa singela como aquela. Achei curioso: quando expõem nas galerias, estando a luz dos spots bem direcionada sobre suas obras, dizem que são como todo mundo, que todos são igualmente artistas, que estão mais preocupados com a sociedade do que com a arte em si. Assim o dizem, mas convide-os para um verdadeiro encontro entre política e estética, onde realmente suas intervenções estariam diluídas no espaço cotidiano, e verá que o interesse deles se desfaz. Pode ser, quiçá, que eu estivesse mais envolvido com a faculdade de Letras, onde cheguei a cursar o primeiro ano, onde tinha amigos e namorada, e que se manterá sempre no meu horizonte, já que passei a atuar mais como escritor que artista plástico. Pode ser que tenha pesado essa diferença de conotações pessoais, no entanto eu vinha notando que eram muitas as características do curso que escolhi que me incomodavam.

A começar, “Faculdade de Artes Plásticas” me soa como uma contradição de termos. Afinal arte não é coisa que possa efetivamente ser ensinada, muito menos academicamente. Causava-me um enorme desconforto realizar uma pintura, uma escultura ou uma performance, sabendo que me aguardaria uma nota de zero a dez. A expressão criativa, que deveria ser manifestação livre, condicionada a um sistema numérico de avaliação. Definitivamente, os professores da maior faculdade da América Latina não seriam capazes de ensinar o que é arte. Mas não está aí o problema; o problema maior era o quanto os colegas julgavam sabê-lo. A retórica anti-artistica se propaga quase sem concorrência na academia, mas não é divulgada com tanto fervor pelos professores do que entre os obedientes alunos, que disputam entre si quem assimilou melhor a lição-de-casa. Um fato que é preocupante por si mesmo é o de que praticamente não há, hoje, artistas contemporâneos sem diploma, sem o certificado da academia. Quem não é treinado para reproduzir o discurso corrente, praticamente não tem voz. Inexiste um pensamento alternativo ao pós-modernismo tal como a academia o entende. Foram anos solitários nas Artes Plásticas, a ponto de eu me arrepender um tanto de não ter seguido na Letras, onde há mais espaço para discordâncias, para verdadeiros diálogos.

Na reitoria

Se arte é o que tais pós-modernos dizem, ela deveria estar completamente inserida no cotidiano, de preferência despida do rótulo de “arte”, servindo como auxilio nas lutas contra o status quo. Foi pensando assim que busquei, na ocupação da reitoria, um laboratório privilegiado para avaliar todo o estudo teórico sobre o papel da arte na sociedade. No início de 2007, eu ainda tateava minhas conclusões, ainda não tinha os conceitos que formularia depois, ainda não tinha muita clareza quanto a como me posicionar diante das informações que eu vinha acumulando. Chegando ao campus, pude ver os pneus da barricada coloridos em tons alegres; pude ver nos tapumes uma espécie de muralismo à base de spray; a música variava de rap a Mutantes; e de modo geral o clima era de uma confiança contagiante. Percebia-se claramente uma inspiração “Maio de 68” naquele ambiente – a USP como nova Sorbonne – uma imprevisível crença na coletividade. Não demorei a me perguntar se aquilo tudo seria ou não a verdadeira manifestação da arte, mais que qualquer outra. É um questionamento quase inevitável para quem tem formação em artes plásticas, portanto tentei escutar ali um eco do que se originou cinquenta anos antes. Em julho de 1957, Guy Debord, Asger Jorn e outros criavam a Internacional Situacionista, movimento artístico-político que inflamaria tanto os estudantes franceses contra o conservadorismo quanto os chamados neo-dadaístas contra toda a arte anterior. 

                                                    Guy Debord, Michèle Bernstein e Asger Jorn           

Guy Debord foi, de todos os tempos, um dos intelectuais que mais defenderam a ação. O crítico do sistema que ele denominou “sociedade do espetáculo” opunha-se não só à produção da indústria cultural, mas também a todas as formas de arte vigentes. Para ele, mesmo a alta cultura é sintoma de um mundo apegado à aparência e à contemplação passiva. Ele não poupa sequer movimentos de vanguarda como o surrealismo e o dadaismo, que, em última análise, não iriam além do espetáculo reificante. Ainda que discordemos dele, há ao menos um motivo para considerá-lo respeitável: no início, a Internacional Situacionista era um grupo de artistas, porém conforme a vontade política se tornou mais contundente, simplesmente deixou de ser. No mínimo, é mais coerente do que os artistas engajados que tivemos de lá para cá. Guy Debord, ao assumir a liderança do grupo, não hesitou em expulsar todos seus membros poetas e artistas plásticos, inclusive o renomado Asger Jorn, para consolidar uma organização decididamente política. Ao longo dos anos 60, acompanharia o movimento dos Panteras Negras em Los Angeles e a revolta estudantil de Maio de 68, além de diversas rebeliões proletárias ao redor do mundo.

Guy Debord acentuou, com as expulsões, a linha que nenhum artista deveria ultrapassar, caso optasse por uma militância direta e radical. Mas não demoraria para que a geração seguinte achasse que poderia engolir tudo, que poderia cooptar as idéias de Debord, arrastá-las justamente para a sociedade do espetáculo. Consequentemente, temos um ambiente artístico onde somos obrigados a engolir muita demagogia barata, artistas sem talento algum, até hoje influenciados pela tal “morte da arte”, tentando nos convencer de sua pertinência apenas por serem “engajados”. Não é tarde demais para compreender qual seria a única consequência lógica e natural de seus discursos aparentemente intransigentes: fazer realmente como os situacionistas fizeram, ou seja, perceber que a arte é insuficiente para mudar o mundo. Saltar fora, renunciar à arte, sempre que objetivos mais concretos o pedirem. Pode-se – deve-se, em muitas situações – usar a estética diretamente no cotidiano, de maneira transformadora, sem chamá-la de arte.

Em minha visita à ocupação da reitoria, os detalhes me fascinavam: encontrava-se em todo canto alguma expressão de criatividade, fosse nos cartazes, fosse em charges, fosse no painel da “Comissão de boatos falsos” – “Mcdonald’s e Burger King disputam para patrocinar a ocupação” – no entanto, tudo que talvez pudesse ser percebido como “arte engajada” ali estava sendo usado em situação, em seu contexto mais apropriado. A luta pela autonomia da universidade era legítima e ativa, não uma retórica demagoga para seduzir colecionadores e críticos. Encontrei alguns estudantes de Artes Plásticas no prédio e soube que eles ajudaram a colorir os pneus e os tapumes – no entanto, para meu alívio, não eram considerados pelos seus colegas como mais importantes que os cozinheiros. Ainda assim, tive receio de que algum jovem artista tivesse a brilhante ideia de, findo o episódio, transportar tudo o que acontecera na reitoria para uma sala de exposição. Nem sequer precisaria acrescentar um olhar mais pessoal, bastaria arrastar os pneus da simbólica barricada para o cubo branco de uma galeria, ou arrancar as frases mais espontâneas das paredes para que valessem mais dinheiro emolduradas, em um  outro contexto – o do mundo artístico. Seria uma jogada quase certeira, o mundo da arte contemporânea hoje é fútil o bastante para aplaudir uma mesquinharia dessas. Mas o que seria isto se não neutralizar a força do que em um momento foi vida, vendendo-a como espetáculo? É neste momento que, mesmo discordando de Guy Debord em muitos aspectos, reconheço a acurácia e a pertinência de sua análise.  

Os situacionistas por vezes usavam a palavra “arte” em um sentido pouco usual. Com isso desencadeavam um problema semântico, pois o que eles chamavam de arte representaria o fim de tudo aquilo que entendíamos por esta palavra. Os pós-modernos empregariam-na de maneira semelhante, com a diferença de que Debord não entraria mais em exposições artísticas, e os anti-artistas, sim – o que faz toda a diferença, na verdade. Nas teorias situacionistas, tratava-se de uma fusão da arte na vida, entretanto com tamanho compromisso que seria necessário repudiar tudo o que eles consideravam “artificial” e “ilusório”. Contemplar uma pintura, por exemplo,  seria se afastar da vida real, sendo que a verdadeira poesia estaria na ação, no desejo de transformação colocado em movimento. Foi pensando nisso que, tomado pelo dilema, eu me perguntava se a verdadeira arte estava na força e na beleza de uma luta por uma causa justa, ou se seria aquilo que eu aprecio mais propriamente pela expressividade, e que ainda cabe em salas de museu, nas páginas de literatura, nos palcos de teatro. Minha dúvida se acentuava por já ter estado próximo de alguns terroristas poéticos, uma espécie de atualização dos situacionistas, compartilhando com eles o ideal da imaginação no poder.

Guy Debord, ao contrário de figuras mais suspeitas como Marcel Broodthaers, jamais fez questão do rótulo de “artista” ao conciliar política e criatividade. Escrevia bem, recorria a efeitos estéticos instigantes em seu discurso e em seus meta-filmes, no entanto, mais do que qualquer coisa, foi um dos maiores estrategistas da esquerda do século XX. Não é a toa que influenciou os estudantes do Maio de 68 e, anos mais tarde, os ativistas punk. No entanto, creio que um dos momentos mais lúcidos da história da arte contemporânea, em seu aspecto político, foi o rompimento sereno entre Guy Debord e Asger Jorn. O dinamarquês Asger Jorn, pintor consagrado de vertente expressionista, aceitou tranquilamente que já não teria espaço em um grupo de atuação muito mais política do que artística. Ainda assim, quis colaborar à sua maneira, e financiou despesas da Internacional Situacionista com a venda de suas telas. Guy Debord continuou seu amigo, não rejeitou essa contribuição. O artista e o militante político permaneceram aliados, ainda que na prática suas atividades se demonstrassem inconciliáveis. A cansativa verborragia anti-mercado dos anti-artistas, não tivesse sido tão histérica (não tivesse negado a si mesma a potência do desejo) bem que poderia ter criado hábitos colaborativos como esse. Se tivessem gastado a mesma quantidade de energia que gastaram, teriam conseguido criar uma tradição solidária, da qual poderíamos estar nos beneficiando hoje. Na esteira de Asger Jorn, todo artista plástico talentoso que enriquecesse, e que apesar de inserido no mercado ainda se considerasse parte da resistência, teria distribuído seus lucros para ativistas que não se coadunam com a lógica do mercado. Ainda seria uma espécie de expiação, mas a retórica pós-moderna não foi outra coisa e parou no discurso.

Nós poderíamos ver a resistência dos estudantes da USP com a mesma emoção com que observamos uma obra-prima da pintura, sem deixar de amar nenhuma das duas. Não é tão contraditório como supõem os discípulos de Broodthaers, ou qualquer defensor da anti-arte. Pelo contrário, pois a anti-arte propõe uma rejeição da arte contemplativa, no entanto faz da vida e da política um mero espetáculo – por mais que, absurdamente, se digam sintonizados com as teses situacionistas. Se sua motivação principal fosse de fato a mudança política, já não seria necessário o status de artista: o diálogo já não seria com um público erudito especializado, mas um investimento direto e sincero na realidade. Atualmente, vendem engajamento como arte porque tudo o que conseguiram foi uma fetichização da rebeldia. Nada mais “sociedade do espetáculo.”

A dúvida que se pode colocar é se Debord estava certo ao considerar a totalidade das expressões artísticas como algo a ser superado, não passando de um espetáculo que transformaria sujeitos em objetos. Como defesa, é bom salientar que o Situacionismo começou como movimento artístico, e que tal experiência foi importante para todos seus membros, para Debord inclusive. Foi bastante injusto de sua parte considerar que a arte não contribuiu para sua formação pessoal, pois em algum momento lhe acrescentou algo essencial. Nem que fosse como traço mnêmico, a arte permaneceu no olhar que Debord dirigia à realidade. Na reitoria da USP, pelas conversas que tive com seus ocupantes, ficou claro o quanto resistência e arte podem coexistir em harmonia. Foram unânimes ao afirmar que as músicas, os desenhos e os saraus lhes animavam a continuar, nem que fosse por proporcionar momentos de descontração indispensáveis. Mas nem sequer é esse o âmago da questão. Gostaria que Guy Debord estivesse vivo para responder. Se é exatamente na fronteira do não-eu que se percebe o eu, por que não seria na fronteira da não-vida a descoberta da vida? A arte contemplativa, diante da vida, é mero espetáculo ou olhar fundante?

Entre vida e não-vida

Quase cem anos depois, já podemos tentar entender o gesto de Marcel Duchamp sob uma perspectiva mais promissora, sem deixar de levar em conta sua importância. Por ter deslocado um mictório de seu uso banal para o espaço expositivo, avalia-se que Duchamp tornou indiscernível o que é arte daquilo que não é. Duchamp era um sujeito melancólico, que não gostava de expor suas obras e tinha forte tendência para a reclusão. Aparentemente, interessava-se mais por xadrez do que por arte, preferindo o intelecto à sensorialidade. Afirmava que uma hélice de navio lhe agradava mais do que qualquer pintura. Por ser tão misterioso e excêntrico, não deixava de ser uma figura interessantíssima, tornando-se folclórico por suas tiradas sagazes. No entanto, é visível o contraste do que se passou com as artes plásticas, que teve como paradigma maior Duchamp, e a literatura, que elegeu James Joyce como expressão máxima. São figuras quase opostas, e seus respectivos sucessores também responderam de maneira divergente. Tanto um quanto o outro desafiou os limites de seu ofício, mas Duchamp o fez em direção a uma contenção da atividade artística, resvalando na pele do que chamaríamos de "vida", enquanto o extravasamento de Joyce estava na abundância transbordante, na variação e no virtuosismo da palavra. Os artistas que hoje seguem o caminho aberto por Duchamp estão sempre muito próximos de negar a arte, enquanto que se influenciar por Joyce pode levar a um questionamento do romance linear, mas não da arte como um todo. Pelo contrário, pois se passa a sentir a linguagem como potência autônoma.
           
                                                     A Fonte, de Marcel Duchamp     
                               
A maior parte dos escritores contemporâneos, vinculando-se ou não à herança de Joyce, ainda se vê capaz de instaurar mundos, de permitir passeios por universos “paralelos”, ainda que sob grandes desafios. A partir de Duchamp isso é mais difícil, pois estamos pertos demais da literalidade. O título da obra pode ser A Fonte, mas a presença de um urinol se impõe com tanta peremptoriedade que acabamos ficando apenas com o que está diante dos olhos. O readymade nos frustra se tentarmos imaginar uma fonte barroca jorrando água no meio de uma praça: aí está sua provocação e sua originalidade. Quanto à literatura pós-Joyce, o que oferece hoje ao leitor está mais próximo do que faziam Picasso e Braque: permitir que a linguagem seja percebida enquanto tal, revelando a fatura, criando jogos metalinguísticos, evidenciando que obra de arte é resultado de um processo, porém deixando espaço aberto para a imaginação. São jogos que flertam com a realidade, mas dificilmente chegam ao ponto em que a fantasia deixa de ter uma espécie de consistência própria. Mesmo a chamada morte do romance não é entendida de maneira tão literal ou obrigatória quanto a morte da arte é recebida pelos artistas visuais.

Claro que ainda se vê, esparsamente, pinturas e esculturas que se fazem valer por sua exuberância, pela afirmação estética, ignorando completamente a lógica da anti-arte. Porém, encontrar uma pintura dessas numa exposição coletiva de arte contemporânea não tem sido uma experiência tão fluida quanto ler um conto da literatura de nosso tempo. O conto é um pequeno mundo à parte, permite que se mergulhe sem precauções na ilusão a que ele convida. Ainda que em uma antologia haja um ou outro conto mais “duchampiano”, é possível ler um mundo de cada vez, e com cada autor aceitar uma tensão diferente para com a realidade. No caso de uma exposição coletiva, não temos a mesma sorte. A presença física das obras faz com que elas interfiram umas nas outras se a distância for muito curta. Acrescente-se a isso o fato de a opção pela refratariedade ser bem mais radical nas artes plásticas. As obras já vêem com um longo discurso embutido, seja nas entrelinhas ou explicitamente. Fato é que uma boa parte das obras de artes plásticas são tão retraídas que só sobrevivem na hipótese de a pintura estar morta, ou de toda a arte estar agonizando. Coloca-se no espaço expositivo algo que supostamente seria um dos últimos suspiros da arte – e não há como imergir em uma boa pintura com um mínimo de entrega, pois o canto do olho já percebe que a obra vizinha é muito sua antagonista oficial, exalando cheiro de morte. Há ruídos cujo único fim é abafar a música, e às vezes conseguem. Sabendo disso de antemão, os artistas não se animam a criar nada que destoe dessa realidade hostil – as experiências devem ser literais e imediatas, sem ilusões, só reiteração da concretude. Para se encaixar, é preciso manter o espaço da exposição como um campo inconsútil onde todos os sonhos são refratários.

Essa é, inevitavelmente, a consequência de se entender a provocação de Duchamp como anti-arte ao pé da letra, como um atentado inequívoco. Outra possibilidade seria tê-lo como um artista experimental que nos ajuda a entender o que é arte, mas não um modelo a se imitar ad infinitum. Depois do urinol de Duchamp, ainda fomos obrigados a ver inúmeras obras como os aspiradores de pó de Jeff Koons, tão desnecessários quanto remakes piorado de um filme. Mesmo assim, não convém insistir que a arte estaria melhor sem Duchamp, como querem alguns nostálgicos, pois se por um lado ele dá chance para que se multipliquem obras detestáveis, por outro ele nos ajuda a ir um pouco além na compreensão de o que é arte.

De fato, qualquer coisa pode ser vista como arte, e isso é uma operação mental, que independe da natureza do objeto em questão. Um objeto do cotidiano, um movimento com o corpo, uma frase, uma fotografia, um som, uma ação, um ambiente, um conselho, uma paisagem, uma informação, um jogo, etc. Não há um limite específico para o que pode ser considerado artístico. Contudo, dizer que determinada coisa é arte significa situá-la em uma exterioridade, onde as regras da nossa realidade estão suspensas. Alguns podem dizer que a transformação de um objeto em arte é sua elevação à categoria estética, mas isso ainda é insuficiente para resolver todas as questões. Há muita coisa que apresenta algum requinte estético, mas não nos interessa chamar de arte: alguns exemplos são a publicidade e os discursos políticos. Por outro lado, alguns bons momentos da arte conceitual merecem ser vistos como arte – não só Duchamp, como Tinguely ou mesmo Magritte, se dirigem mais ao intelecto do que à sensorialidade, sem deixar de proporcionar uma experiência única. O importante é compreender que Duchamp não nos colocou diante do momento final da arte, mas, surpreendemente, no de seu início. Mesmo o pintor mais tradicional começa por uma espécie de readymade mental, um deslocamento, assim que olha para a paisagem que pretende retratar. Ao transferir uma paisagem para uma tela e julgar essa tela uma obra de arte, ou deslocar um urinol com intenção semelhante, é preciso compreender que se trata de colocar um pedaço da realidade à distância. O artista, sozinho, é incapaz de transformar qualquer coisa em arte, nem que seja em um suporte tradicional como uma tela, pois o processo só se completa no espectador. Ao aceitar contemplar um objeto como arte, seja a representação pictórica de uma paisagem, uma fotografia ou um urinol, o espectador estabelece um diálogo entre o mundo concreto e sua negação. Qualquer expressão de arte se dirige ao campo da não-vida, pois somente ao se posicionar como alteridade é que estabelece uma tensão dialética com a vida.


            Não-vida

            A recusa à fusão entre vida e não-vida deve ser encarada como multiplicação de devires, não como limitação. Fundir completamente vida e arte, o que implicaria na morte desta última, seria reduzir tudo à univocidade, a um imenso Mesmo contínuo e totalizante. Ao manter a equação em par, temos diversas possibilidades de aproximação e afastamento que vão muito além de uma visão monista, ou mesmo de uma concepção dicotômica. Tanto a relação entre eu e não-eu quanto entre vida e não-vida podem ir muito além do dualismo tradicional, desde que se percebam os intercâmbios constantes, os encaixes que se dão pelas fissuras, o trânsito intenso entre um pólo e outro. O que se defende aqui é exatamente uma arte a serviço da vida, mas que para isso teria que tensioná-la de fora para dentro. Arte é tudo aquilo que convoca a própria vida para sua alteridade. É experiência coletiva mesmo quando solitária, pois ao criar outros mundos faz vibrar o nosso.
 
     Foram avaliações puramente ideológicas que desprezaram o poder que a ilusão tem de alargar a realidade. A arte ilusionista, em especial a pintura, foi considerada nos últimos tempos como um convite ao alheamento, a uma apatia contemplativa que nos afastaria das experiências concretas mais significativas. Não discordo que se possa afirmar isso sobre a publicidade ou a produção kistch da indústria cultural, mas não quanto à grande arte. É tão autoritário e absurdo supor que podemos prescindir de um escape para a realidade que a proposta em si pode ser considerada uma ilusão maior ainda. Insistir nela é presumir que o homem seja muito menor do que de fato é, coisa que tranqüiliza momentaneamente quem pretende simplificar suas coordenadas, mas que não traz verdadeiras soluções. O homem é complexo e inconstante demais para que se lhe possa receitar um comportamento padrão. Temos pulsões inconscientes violentíssimas que precisam de expressão simbólica; temos o instinto para a brincadeira e para o lúdico que deve ser contemplado; restabelecemos uma quantidade enorme de sentidos na comunicação não-verbal, dos quais não nos damos conta exatamente por serem intraduzíveis. Provavelmente jamais teremos a dimensão de qual a importância da arte como inspiração para outras atividades, mas supor que a imaginação descompromissada não expanda o raciocínio para outras funções imprescindíveis me soa como atitude temerária. Será coincidência o fato de o despertar da arte como atividade distinta das demais, na Grécia, coincidir com o surgimento da filosofia e da ciência? Não houve ali uma ordenação simbólica mais complexa como um todo, justamente por permitir que a ilusão tivesse um lugar para se manifestar enquanto tal? Por mais que seja mera convenção essa instauração de um campo mental a que chamamos arte, não é um procedimento que organiza real, imaginário e simbólico de uma maneira promissora?


Muito mais proveitoso do que uma recusa à criação de qualquer mundo para além do nosso, o que adquire um caráter moralista e inconsequente, seria confiar no espectador como alguém capaz de se movimentar livremente entre o campo da vida e o da arte. Pois de fato não se deve trocar uma pela outra, tampouco isolar completamente as duas instâncias. A postura mais promissora que alguém pode ter entre sua vida e a arte não é diferente da postura ideal entre eu e não-eu (entre eu e o mundo, eu e os outros, eu e meus parceiros). Se eu for generoso o bastante, devo desejar que os outros sejam fortes, livres, e que se expressem com voz própria. Creio que toda grande arte mantém um respeito digno com o espectador, uma relação onde os dois podem ser fortes e onde, apesar de independentes, podem se tangenciar e proporcionar diálogos. Isto posto, a arte não deve ser exaltada a ponto de ganhar mais importância que a realidade, tampouco precisa ser submissa ao espaço da vida. A arte não tem obrigação de abarcar inteiramente os problemas da realidade – a abnegação está mais para a covardia do que para inspiração utópica – contudo, ninguém deve se apaixonar por uma ilusão a ponto de se alienar dos conflitos ao seu redor. Não está ao alcance do artista saber até que ponto os espectadores se interessarão por transformações na realidade efetiva, mas ao evidenciar uma alteridade em relação ao mundo, e portanto fazer com que este vibre, no mínimo aguçará a percepção.


            Chamando pelo nome
           
            A questão, portanto, não é exatamente repensar O que é arte, mas o que vale a pena chamar de arte. Ou seja, o que é que nos interessa colocar à distância, afastado da vida imediata, a ponto de nos convocar para um olhar que ponha a realidade em suspensão? Eu diria que em especial aquilo que, mesmo que tenha a vida como ponto de partida, não caiba inteiro na realidade. Os devaneios que crescem e tomam forma; os devires que não poderiam se atualizar completamente; as experiências vividas, desde que transformadas pelos recursos da linguagem (romances históricos se tornam ficção; os romances beat não são auto-biografias); qualquer fantasia que mereça ser apresentada ao público; a comunicação de percepções e afetos intensos; e uma infinidade muito maior de possibilidades, pois não há interesse algum em se esgotar a lista. Alguns casos realmente tornam difícil nossa decisão entre aceitá-los ou não como arte. Por exemplo as últimas obras de Lygia Clark, os objetos relacionais. Estão entre suas criações de maior apelo sensorial, mas supostamente deveriam ser entendidas como procedimentos terapêuticos, segundo a própria artista. Em um caso como esse, cabe a cada fruidor, a partir de seu ponto de vista, dizer se compreende a experiência como artística ou terapêutica. O que se deve evitar é situar a priori qualquer experimento que rompa fronteiras como pertencente ao mundo da arte. Nem todo gesto de resistência é arte. 

                                    Projeto Coca-cola, de Cildo Meireles 


A melhor maneira para entender isso é nos conscientizarmos daquilo que não interessa tomar como arte: tudo o que perde força quando espetacularizado. Tudo o que merece ser enfrentado diretamente, sem maquiagens, na tessitura da vida mesma. Um bom exemplo é a famoso Projeto Coca-cola de Cildo Meireles[1]. É brilhante quando vista como subversão do cotidiano, mas basta chamá-la de arte para domesticá-la, diminuindo seu impacto. Uma ação que se posicionou como combate a algo tão concreto como a ditadura não precisa entrar nas mesmas redes sinápticas em que arquivamos Matisse, Pollock, Marina Abramovich ou mesmo as obras mais artísticas do próprio Cildo. Afinal, todos esses estão a uma distância relativamente confortável do conjunto de ações e reações imediatas daquilo que entendemos por realidade. O Projeto Coca-cola merece ser visto como algo que atuou diretamente no estado de coisas, podendo ser estudado como um ato inteligente e criativo de enfrentamento. Seu primeiro público, os consumidores do refrigerante pegos desprevenidos, sequer sabiam que o autor era um artista plástico. Contudo, o gesto de Cildo, por mais admirável e ousado que seja, perdeu força assim que entrou em uma sala de museu.

Uma boa parte da arte engajada incorre nesse erro. O melhor talvez seja evitar chamar ativismo de arte, mesmo quando carregadas de elementos estéticos. Fazê-lo implica na sugestão de que os atos de resistência só são possíveis em um plano diferenciado, do qual só se participa sendo um artista. As demais pessoas, logo que aceitam que um gesto subversivo se trata de arte se sentem um tanto distantes da ação, não a sentem como a parte mais viva da realidade. Algo que é glamourizado por uma etiqueta tão nobre como a da arte entra na nossa cabeça de um modo muito cômodo, como um eco distante, pois na melhor das hipóteses estará próximo das ficções que colecionamos desde crianças. Ao menos é o que aconteceria com o espectador mais cordato, pois há quem, com justiça, se sinta irritado com a arrogância de quem se proclama artista ao vender meros apertos de mão ou, como tem acontecido, oferecer algo semelhante ao que um ativista mais sincero poderia proporcionar. Dizer que todos são artistas (já que toda ação é arte) não passa de jogo de palavras, pois as pessoas nem sequer querem ser todas artistas, e muito menos poderiam expor nos museus sem os contatos profissionais que o artista tem. Na prática, os critérios acabam sendo os das relações de poder (ver Crepúsculo de paradigma).

Apostar todas as fichas na ética é um caminho muito limitado tanto para a criação quanto para a fruição de arte. Em primeiro lugar, porque se a intenção é exclusivamente engajar-se, pode-se fazê-lo em muitas outras atividades que não exatamente artísticas, e talvez se faça com maior eficácia quando não há o risco de rebaixar a política e a ética à lógica do espetáculo. Além disso, a explicitação é uma estratégia que convém muito mais ao ativista do que ao artista, o que torna bastante problemática a obsessão pós-moderna para que cada obra de arte defenda tão inequivocadamente sua opção pela militância. Os escritores contemporâneos geralmente entendem que suscitar dúvidas costuma ser mais instigante do que entregar idéias fechadas. A postura que melhor convém à arte sempre foi a afirmação da liberdade, o que não deixa de ser uma posição política, mas não necessariamente explícita, muito menos instrumentalizável. Pelos padrões atuais, Mahatma Gandhi poderia muito bem ter se proclamado um artista ao propor a resistência pacífica –como um performer, por exemplo – mas bastaria empregar esse referencial para perder completamente a adesão que obteve. Ou seja, um dos momentos históricos mais poéticos só se realizou por não ter reivindicado qualquer contiguidade com a esfera da arte.





[1] Inserções em circuitos ideológicos: Projeto Coca-cola, de 1970. Tratava-se de uma garrafa comum, circulando pelos canais normais de distribuição com frases subversivas impressas, à revelia dos fabricantes. Algumas das frases: “Quem matou Herzog” e “Yankees go home!”