Nem todo artista que propaga o anti-ilusionismo é comunista, mas, mesmo que ele não saiba, sua obra não é possível sem o repertório de quem sonhou com a ditadura do proletariado. O socialismo não-ditatorial, seja social-democracia, seja o socialismo anarquista, jamais daria condições epistemológicas para a arte pós-moderna (ou melhor, arte anti-moderna). Para tanto, é preciso um pensamento de maior carga retórica, que inclua a crença de que uma vanguarda (vanguarda política e/ou estética) poderia estar ao mesmo tempo muito acima e muito atenta ao proletariado. O artista seria tão especial quanto o membro de um Partido Comunista, obtendo certos privilégios em relação à massa, contudo, ao menos em tese, em nome da revolução e em caráter transitório. Estaríamos desde já caminhando para o fatídico dia em que não haveria mais artistas, pois todos se tornariam artistas, do mesmo modo que um dia não haveria mais Partido assim que a igualdade estivesse assegurada. A idéia de "fim da arte" lembra muito o "fim do capitalismo". Todos os homens se equilibrando num mesmo patamar, tanto economicamente quanto esteticamente.
Muitos críticos de orientação marxista veem com bons olhos a “revolução” dos artistas pós-modernos, revolução esta que estaria em pleno curso mesmo que ainda vivamos no sistema capitalista. No entanto, se esses críticos tivessem mesmo devoção aos ideais de Marx, deveriam perceber o quanto os artistas funcionam como propaganda negativa para tal ideologia. Eu mesmo não teria muito interesse em confrontar o comunismo, que, não fossem meus estudos em artes plásticas, talvez não me parecesse tão desagradável. Se me sinto impelido a expor minhas críticas é porque os artistas escancaram as maiores falhas desse sistema, de maneira talvez ainda mais evidente do que no socialismo real.
Aconteceu com o artista o que Bakunin, ainda no século XIX, previa que aconteceria ao proletário, assim que chegasse ao poder: uma vez no topo, o revolucionário não é mais o mesmo, ele se deslumbra com seu novo status, distancia-se do povo. O que estou criticando é uma visão essencialista de ser humano, pouco maleável, onde o indivíduo revolucionário jamais pudesse oscilar, onde os membros do Partido mantivessem sua integridade incólume durante todo o processo. O socialismo real falhou em todas suas tentativas, e não por acidente. Não se pode colocar toda a culpa em Stalin, Mao ou Pol Pot, em “deturpadores” dos ideais comunistas, pois parece haver algumas falhas na própria teoria. O próprio Marx, provavelmente, revisaria muito do que escreveu se estivesse vivo hoje. Aliás, Marx chegou a dizer que, em alguns momentos, seria preferível evitar a revolução através de acordos. Em vez de tomada de poder, a estratégia das greves. Não era sua posição mais frequente, mas a encontramos por vezes, já que ele analisava situação por situação. No caso da Inglaterra, por exemplo, ele achava que o proletariado poderia obter a uma posição digna sem chegar aos últimos estertores da revolução.
Concentremo-nos, porém, no Marx de seus momentos revolucionários. Bakunin pode não ter conseguido articular uma alternativa ao capitalismo tão detalhada quanto à ditadura do proletariado marxista, mas não teve que esperar por tragédias históricas para ver as limitações daquele sonho. Hoje temos um repertório razoável de experiências para constatar que a implantação do comunismo tende a se desviar para joguetes autoritários. A meu ver, os artistas pós-modernos deixaram muito claro que, na prática, pouco importa o quanto haja de preparo intelectual, de discussões, ou mesmo de simpatia pela causa para que as deturpações tomem lugar. Uma coisa que se tem que admitir sobre os artistas pós-modernos é que eles costumam ser extremamente intelectualizados. Não é raro que o repertório de um artista seja tão vasto quanto o de um cientista social no que diz respeito à política. Às vezes, beneficiando-se do grande tempo livre que sua profissão permite, pode ser ainda maior. Temos visto que o artista pós-moderno sabe muito bem articular o repertório ao defender sua obra, sabe se impor nos debates, e parece atento ao que está acontecendo nas comunidades em que intervém. No entanto, mesmo quando ele tem uma auto-imagem das mais revolucionárias, não consegue ir além da demagogia.
Ao longo deste livro, demonstramos o quanto o artista pode ser oportunista ao trabalhar com a sociedade: muitas vezes, o que ele faz qualquer pessoa poderia fazer, no entanto o diferencial se concentra no status de artista, na posição social que ele representa. Por exemplo, tem sido mais ou menos frequente o trabalho de um artista mal se distinguir do trabalho de um jornalista. Se considerarmos que possa haver jornalistas sérios fazendo sua parte, a única justificativa para que vejamos o jornalismo de um artista como diferente dos demais estaria na oficialização. Seu trabalho é validado como arte mesmo que não seja mais poético, mais complexo ou mais sutil do que o de um bom jornalista alternativo. Em vez de jornalismo é arte apenas porque foi feito por um artista, sem mais. Como se o artista representasse uma imprensa oficial, como se ele fosse porta-voz de um partido, transmitindo uma visão definitiva – mais autenticada do que autêntica. Se pensarmos que ele está fazendo isso na era da internet, quando há instrumentos como os blogs e o CMI, onde qualquer um pode participar, fica evidente que tal procedimento ignora a voz própria daqueles sobre quem ele tanto fala. Se é em nome do povo, a intenção é lhe impor suas verdades, subjugando sua autonomia. O que se passa a respeito de jornalismo ocorre em outras áreas: um artista pode ser um colecionador de objetos ordinários, um palestrante, um assistente social, um guia turístico, desde que pertença ao "partido".
Não creio que todos os artistas que procedam de maneira semelhante estejam cientes do quanto são reacionários. Uma grande parte entendeu as regras do jogo e age de má-fé, para não dizer desonestamente. Outra parte, considerável, está tão imbuída dos discursos, tem tamanha necessidade deles para dar sentido à vida, e já tem de saída tanta convicção de sua própria bondade, que realmente não enxerga as implicações de seus atos. Depois de Marx tivemos Nietzsche e Freud, com os quais aprendemos que ninguém escapa de sua dose de loucura cotidiana, de alguma auto-ilusão estruturante. A loucura cotidiana com frequência se manifesta em discursos sofisticadíssimos. Marx foi um gênio, sem dúvida nos ajuda a dissecar o capitalismo, mas não foi longe o suficiente em uma questão fundamental: no fato de que muitas vezes o inimigo está dentro de nós, tanto quanto no outro. Feitas as somas, temos que os dissimulados e os míopes se complementam, compondo essa corajosa vanguarda, essa elite intelectual que supostamente defende o povo, catastroficamente assertiva sobre sua lucidez e suas boas intenções. Conduzem-nos a um mundo onde tudo que consideram ruim será destruído e o que consideram bom será exaltado. Se na política o comunismo não atingiu o mundo inteiro, na arte a ideologia rompeu barreiras, espalhando-se pelas principais instituições de todo o planeta. Dessa vez, não se pode culpar os russos ou os chineses por sua idiossincrasia, pois todas as variações locais se ajustaram e contribuíram para a revolução da arte, satisfazendo os críticos marxistas como coisa consolidada. Paradoxalmente, nos países comunistas de fato, essa "revolução da arte" não teve espaço, o que, antes de invalidar minha tese, a confirma. Onde o comunismo se impôs no estado, esse tipo de afetamento foi dispensável. Porém onde a revolução não se consumou, foi consumida. Para se contrapor ao imaginário dominante, considerado capitalista, o ideal comunista se realizou mais na cultura do que na política.
O Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung
O equivalente à ditadura do proletariado se realizou nas artes plásticas, muito mais do que em qualquer outro meio de expressão. Muitas das posições críticas foram ditatoriais: a “morte da pintura”, por exemplo, ganhou uma proporção enorme. A maioria das pessoas não está bem informada dos expurgos antipintura, como também se sabia muito pouco sobre a China de Mao ou a Cuba de Fidel sem estar em seus territórios. Para quem lida diretamente com o regime, sabe que a pintura ainda é uma inimiga perseguida pela ideologia. Logo se vê que uma ditadura, seja de esquerda ou de direita, política ou cultural, só é possível quando combate incessantemente seus dissidentes. Alimenta-se de uma postura beligerante, pois, ironicamente, a liberdade prometida requer imperioso controle. Nota-se que a pintura é necessária para a sustentação de seus opositores, pois a arte pós-moderna é tão calcada na morte da pintura, que, se ela de fato morresse, ficariam sem assunto. O comunismo sempre descambou para o militarismo: sem a paranoia constante contra o inimigo, a ideologia deixa de exercer fascínio e adesão e esmorece. Nos anos setenta, chegou a haver um risco real de que a pintura desaparecesse da grande arte (tamanha a perseguição), embora, se isso acontecesse, teriam que encontrar novos inimigos. Talvez tivessem que sair um pouco das artes visuais e engrossar as fileiras anti-romance, anti-poesia, anti-cinema, que felizmente sempre foram comparativamente modestas.
Vamos dizer, hipoteticamente, que eu esteja muito equivocado quanto ao marxismo na política. Se for esse o caso, quem me conduziu à visão extremamente negativa foi a arte pós-moderna. Admito que existam comunistas de boa índole, mas estes deveriam ser os primeiros a combater a arte que venho contestando, com a mesma assertividade com que devem rechaçar o modelo stalinista. O mau exemplo desses apenas desperta profunda desconfiança em quem acompanha por fora. Todavia, ao pensar que um artista supostamente deveria ter sensibilidade, tenho dificuldades para imaginar um Partido Comunista composto de gente mais honesta do que os artistas das fileiras anti-modernas. Pessoalmente, não sei se basta fazer alguns alertas e separar joio do trigo. Prefiro reconhecer, como Freud o fez em O mal-estar da civilização, que o ser humano não tem capacidade para uma tarefa tão totalizante quanto a que Marx sonhou. É por isso que o socialismo me soa bem mais interessante quando a estrutura (ou, como queiram, o Leviatã) é a social-democracia e, fora do governo, a sensibilidade é anarquista. Pode-se, evidentemente, empregar elementos do marxismo, desde que não sejam levados às últimas consequências da práxis. A meu ver, este seria um socialismo imperfeito, mas o único possível. Apenas uma idéia de socialismo que compreenda a incompletude, que se digne a permanecer indefinido, não descamba para deturpações. Quanto à arte, sempre que verdadeira, independentemente da orientação política de seus criadores, é uma força anárquica, indelimitada, avessa a partidarismos.
Muitos críticos de orientação marxista veem com bons olhos a “revolução” dos artistas pós-modernos, revolução esta que estaria em pleno curso mesmo que ainda vivamos no sistema capitalista. No entanto, se esses críticos tivessem mesmo devoção aos ideais de Marx, deveriam perceber o quanto os artistas funcionam como propaganda negativa para tal ideologia. Eu mesmo não teria muito interesse em confrontar o comunismo, que, não fossem meus estudos em artes plásticas, talvez não me parecesse tão desagradável. Se me sinto impelido a expor minhas críticas é porque os artistas escancaram as maiores falhas desse sistema, de maneira talvez ainda mais evidente do que no socialismo real.
Aconteceu com o artista o que Bakunin, ainda no século XIX, previa que aconteceria ao proletário, assim que chegasse ao poder: uma vez no topo, o revolucionário não é mais o mesmo, ele se deslumbra com seu novo status, distancia-se do povo. O que estou criticando é uma visão essencialista de ser humano, pouco maleável, onde o indivíduo revolucionário jamais pudesse oscilar, onde os membros do Partido mantivessem sua integridade incólume durante todo o processo. O socialismo real falhou em todas suas tentativas, e não por acidente. Não se pode colocar toda a culpa em Stalin, Mao ou Pol Pot, em “deturpadores” dos ideais comunistas, pois parece haver algumas falhas na própria teoria. O próprio Marx, provavelmente, revisaria muito do que escreveu se estivesse vivo hoje. Aliás, Marx chegou a dizer que, em alguns momentos, seria preferível evitar a revolução através de acordos. Em vez de tomada de poder, a estratégia das greves. Não era sua posição mais frequente, mas a encontramos por vezes, já que ele analisava situação por situação. No caso da Inglaterra, por exemplo, ele achava que o proletariado poderia obter a uma posição digna sem chegar aos últimos estertores da revolução.
Concentremo-nos, porém, no Marx de seus momentos revolucionários. Bakunin pode não ter conseguido articular uma alternativa ao capitalismo tão detalhada quanto à ditadura do proletariado marxista, mas não teve que esperar por tragédias históricas para ver as limitações daquele sonho. Hoje temos um repertório razoável de experiências para constatar que a implantação do comunismo tende a se desviar para joguetes autoritários. A meu ver, os artistas pós-modernos deixaram muito claro que, na prática, pouco importa o quanto haja de preparo intelectual, de discussões, ou mesmo de simpatia pela causa para que as deturpações tomem lugar. Uma coisa que se tem que admitir sobre os artistas pós-modernos é que eles costumam ser extremamente intelectualizados. Não é raro que o repertório de um artista seja tão vasto quanto o de um cientista social no que diz respeito à política. Às vezes, beneficiando-se do grande tempo livre que sua profissão permite, pode ser ainda maior. Temos visto que o artista pós-moderno sabe muito bem articular o repertório ao defender sua obra, sabe se impor nos debates, e parece atento ao que está acontecendo nas comunidades em que intervém. No entanto, mesmo quando ele tem uma auto-imagem das mais revolucionárias, não consegue ir além da demagogia.
Ao longo deste livro, demonstramos o quanto o artista pode ser oportunista ao trabalhar com a sociedade: muitas vezes, o que ele faz qualquer pessoa poderia fazer, no entanto o diferencial se concentra no status de artista, na posição social que ele representa. Por exemplo, tem sido mais ou menos frequente o trabalho de um artista mal se distinguir do trabalho de um jornalista. Se considerarmos que possa haver jornalistas sérios fazendo sua parte, a única justificativa para que vejamos o jornalismo de um artista como diferente dos demais estaria na oficialização. Seu trabalho é validado como arte mesmo que não seja mais poético, mais complexo ou mais sutil do que o de um bom jornalista alternativo. Em vez de jornalismo é arte apenas porque foi feito por um artista, sem mais. Como se o artista representasse uma imprensa oficial, como se ele fosse porta-voz de um partido, transmitindo uma visão definitiva – mais autenticada do que autêntica. Se pensarmos que ele está fazendo isso na era da internet, quando há instrumentos como os blogs e o CMI, onde qualquer um pode participar, fica evidente que tal procedimento ignora a voz própria daqueles sobre quem ele tanto fala. Se é em nome do povo, a intenção é lhe impor suas verdades, subjugando sua autonomia. O que se passa a respeito de jornalismo ocorre em outras áreas: um artista pode ser um colecionador de objetos ordinários, um palestrante, um assistente social, um guia turístico, desde que pertença ao "partido".
Não creio que todos os artistas que procedam de maneira semelhante estejam cientes do quanto são reacionários. Uma grande parte entendeu as regras do jogo e age de má-fé, para não dizer desonestamente. Outra parte, considerável, está tão imbuída dos discursos, tem tamanha necessidade deles para dar sentido à vida, e já tem de saída tanta convicção de sua própria bondade, que realmente não enxerga as implicações de seus atos. Depois de Marx tivemos Nietzsche e Freud, com os quais aprendemos que ninguém escapa de sua dose de loucura cotidiana, de alguma auto-ilusão estruturante. A loucura cotidiana com frequência se manifesta em discursos sofisticadíssimos. Marx foi um gênio, sem dúvida nos ajuda a dissecar o capitalismo, mas não foi longe o suficiente em uma questão fundamental: no fato de que muitas vezes o inimigo está dentro de nós, tanto quanto no outro. Feitas as somas, temos que os dissimulados e os míopes se complementam, compondo essa corajosa vanguarda, essa elite intelectual que supostamente defende o povo, catastroficamente assertiva sobre sua lucidez e suas boas intenções. Conduzem-nos a um mundo onde tudo que consideram ruim será destruído e o que consideram bom será exaltado. Se na política o comunismo não atingiu o mundo inteiro, na arte a ideologia rompeu barreiras, espalhando-se pelas principais instituições de todo o planeta. Dessa vez, não se pode culpar os russos ou os chineses por sua idiossincrasia, pois todas as variações locais se ajustaram e contribuíram para a revolução da arte, satisfazendo os críticos marxistas como coisa consolidada. Paradoxalmente, nos países comunistas de fato, essa "revolução da arte" não teve espaço, o que, antes de invalidar minha tese, a confirma. Onde o comunismo se impôs no estado, esse tipo de afetamento foi dispensável. Porém onde a revolução não se consumou, foi consumida. Para se contrapor ao imaginário dominante, considerado capitalista, o ideal comunista se realizou mais na cultura do que na política.
O Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung
O equivalente à ditadura do proletariado se realizou nas artes plásticas, muito mais do que em qualquer outro meio de expressão. Muitas das posições críticas foram ditatoriais: a “morte da pintura”, por exemplo, ganhou uma proporção enorme. A maioria das pessoas não está bem informada dos expurgos antipintura, como também se sabia muito pouco sobre a China de Mao ou a Cuba de Fidel sem estar em seus territórios. Para quem lida diretamente com o regime, sabe que a pintura ainda é uma inimiga perseguida pela ideologia. Logo se vê que uma ditadura, seja de esquerda ou de direita, política ou cultural, só é possível quando combate incessantemente seus dissidentes. Alimenta-se de uma postura beligerante, pois, ironicamente, a liberdade prometida requer imperioso controle. Nota-se que a pintura é necessária para a sustentação de seus opositores, pois a arte pós-moderna é tão calcada na morte da pintura, que, se ela de fato morresse, ficariam sem assunto. O comunismo sempre descambou para o militarismo: sem a paranoia constante contra o inimigo, a ideologia deixa de exercer fascínio e adesão e esmorece. Nos anos setenta, chegou a haver um risco real de que a pintura desaparecesse da grande arte (tamanha a perseguição), embora, se isso acontecesse, teriam que encontrar novos inimigos. Talvez tivessem que sair um pouco das artes visuais e engrossar as fileiras anti-romance, anti-poesia, anti-cinema, que felizmente sempre foram comparativamente modestas.
Vamos dizer, hipoteticamente, que eu esteja muito equivocado quanto ao marxismo na política. Se for esse o caso, quem me conduziu à visão extremamente negativa foi a arte pós-moderna. Admito que existam comunistas de boa índole, mas estes deveriam ser os primeiros a combater a arte que venho contestando, com a mesma assertividade com que devem rechaçar o modelo stalinista. O mau exemplo desses apenas desperta profunda desconfiança em quem acompanha por fora. Todavia, ao pensar que um artista supostamente deveria ter sensibilidade, tenho dificuldades para imaginar um Partido Comunista composto de gente mais honesta do que os artistas das fileiras anti-modernas. Pessoalmente, não sei se basta fazer alguns alertas e separar joio do trigo. Prefiro reconhecer, como Freud o fez em O mal-estar da civilização, que o ser humano não tem capacidade para uma tarefa tão totalizante quanto a que Marx sonhou. É por isso que o socialismo me soa bem mais interessante quando a estrutura (ou, como queiram, o Leviatã) é a social-democracia e, fora do governo, a sensibilidade é anarquista. Pode-se, evidentemente, empregar elementos do marxismo, desde que não sejam levados às últimas consequências da práxis. A meu ver, este seria um socialismo imperfeito, mas o único possível. Apenas uma idéia de socialismo que compreenda a incompletude, que se digne a permanecer indefinido, não descamba para deturpações. Quanto à arte, sempre que verdadeira, independentemente da orientação política de seus criadores, é uma força anárquica, indelimitada, avessa a partidarismos.

A posição que tomamos aqui diante da morte da arte não é paranóica, nem nossos contra-ataques são arrogantes. Se formos modestos demais, pareceremos complacentes. Há um problema que não é apenas da esfera do discurso, há uma rigidez burocrática a se combater. Uma diferença crucial entre a força que despendemos aqui e a força contrária: queremos ser potentes, eles são prepotentes. Pré. A diferença entre um e outro é a mesma de um momento histórico e a de um momento pré-histórico. Eles não promovem uma resistência, e sim a inércia.
ReplyDeleteResistência, agora, será frear uma movimentação inercial. Atrito.